Páginas

sábado, 12 de maio de 2012

UMA CPI PARA A MÍDIA

Ruy Fabiano
Jornalista



A campanha do PT contra a imprensa reincide em velhos jargões autoritários do passado, cometendo, desta vez, um erro crasso: o de querer fulanizá-la. O repórter de Veja, Policarpo Junior, tornou-se o alvo da atual investida. E o que fez ele?

Cumpriu sua função. Ouviu uma fonte – no caso, Carlinhos Cachoeira -, em assuntos no quais o contraventor tinha mais informações que a própria polícia. Separou o joio do trigo e utilizou o que convinha às investigações que fazia.

Qualquer um que já tenha exercido o ofício sabe que é indispensável ouvir todos os lados envolvidos numa história. Não importa se a informação está no inferno: terá que buscá-la onde estiver. O que fará com ela são outros quinhentos.

Policarpo publicou-a, prestando um serviço público; Demóstenes Torres, o senador, vendeu-a a um contraventor.

Tim Lopes, o repórter martirizado pelo narcotráfico carioca, subia os morros e conversava com bandidos, em busca de notícia. Contribuiu, e muito, para expor ao público o mapa do crime organizado do Rio de Janeiro e suas conexões.

O crime, porém, não se faz presente apenas nas favelas e periferias. Há muito, chegou às instituições e frequenta a Praça dos Três Poderes. Se o repórter quer mapear esse submundo, será inútil conversar com políticos ficha limpa (que também os há).

Eles podem apenas compartilhar sua perplexidade, não informá-lo, já que não circulam no submundo. Dependendo do assunto, terá que conversar com gente ainda pior que Cachoeira.

O equívoco de fulanizar a luta contra a imprensa decorre de algo simples: se for comprovado que o jornalista delinquiu, o órgão para o qual trabalha simplesmente o demitirá, preservando-se. O mau jornalista passa, mas a imprensa fica.

Supor que investindo contra esse ou aquele jornalista intimidará a instituição é, acima de tudo, burrice. Exemplo disso foi o que ocorreu em 2009, quando a imprensa divulgou a farra das passagens aéreas no Congresso.

Descobriu-se que diversos parlamentares faziam uso indevido daquele privilégio. Alguns, então, decidiram contra-atacar, na expectativa de inibir a ação da imprensa, revelando o nome de jornalistas que haviam beneficiado.

Acabaram prestando um serviço à própria imprensa, que, ao demitir os repórteres infratores, mostrou-se desconectada de suas práticas. O mau jornalista passa, mas a imprensa fica.

Os petistas que decidiram eleger Policarpo como meliante e a revista Veja como instância conspirativa apenas melhoraram o currículo de ambos.

Dependendo de quem acusa e das alegações que faz – é o caso presente -, as acusações transformam-se em atestado de idoneidade. Policarpo não precisa de defesa.

Sua carreira e o próprio teor dos diálogos gravados pela Polícia Federal – em especial quando Cachoeira queixa-se a um comparsa de que o repórter não retribui as informações que recebe e que já desistiu de o cooptar - o isentam.

Já com seus acusadores dá-se o contrário, embora tenham razão num ponto: de fato, faz-se necessária uma CPI da Mídia. Urgente.

Não a pretendida pelos acusadores do repórter de Veja, mas uma que exponha a rede estatal de blogs, pagos com dinheiro público, que aparelha a internet, para difamar adversários e viabilizar um projeto político que começa pela censura aos meios de comunicação e não se sabe onde pretende parar.

Ou por outra, sabe-se muito bem.

Nenhum comentário:


Powered By Blogger